segunda-feira, 4 de junho de 2012

Dias do Fim


31 de Março de 2011

A teoria de 2012 foi-me apresentada com leviandade, com um certo gozo até. No meio de um número considerável de imperiais, o Péricles, apaixonadamente como sempre, contava uma mirabolante história que, só de si, tornava mais fiável o fim do calendário maia, marcado para o fatídico 21 de Dezembro de 2012. Embriagado e divertido, dispus-me a assinalar a data na agenda do meu telemóvel para poder marcar um encontro - ali mesmo na tasca onde estávamos - onde o nosso profeta de bolso pudesse dizer "viram? eu tinha razão" no momento em que as paredes começassem a tremer e o mar invadisse a terra.
- Um menino, desaparecido há muitos anos, voltou à sua aldeia na Índia clamando a todos os que o quisessem ouvir que estavam na presença do deus... hmmm... Brahmaputra
- Caralho Péricles!! Brahmaputra???
- Sim, cara... Brahmaputra, divindade do... fim do mundo, claro!


Gargalhadas ecoaram pela mesa. Tudo aquilo era uma invenção descarada daquele gajo, que, porém, tinha um ar estupidamente credível enquanto continuava a debitar baboseiras. Todo aquele discurso feito naquela noite longíqua e bem regada permaneceu bem vivo nas memórias de todos os presentes, que fizeram a questão de o espalhar aos sete ventos causando vivo espanto nas cabeças dos mais susceptíveis e dos amantes das teorias de consipração "celestialo-científicas", ou o que quer que seja. Aos poucos, a mentira foi sendo tantas vezes repetida que acabou por se transformar numa verdade completamente absoluta. Perguntam-me se eu acredito?? Claro que não. Mas hei-de fazer com que acreditem...

04 de Junho de 2012

Ao longe, dá para ver um par de sereias azuis e a côr vermelha dos carros dos bombeiros. Incêndio? Acidente? Atropelamento? Fuga de Gás? Não, um suícidio seguido de homícidio voluntário. À minha frente, jazia uma enorme árvore centenária, característica do bairro, tombada sobre o asfalto e um automóvel preto. Pela forma como a raíz tinha saltado para fora do passeio, dava a impressão que aquela árvore tinha optado por se arrancar do solo para dar cobro à vida, arrastando na sua queda o inocente autómovel que ali estava estacionado. À hora que vos escrevo, ainda se ouvem as serras a cortar os imensos galhos e o som da grua que tenta, sem sucesso aparente, içar o enorme tronco. Da minha janela, consigo ver os galhos frondosos que começavam a estar repletos de folhas anunciando uma Primavera que está a chegar tímida e intermitente. Ao ver aquela árvore caída fico feliz por ter marcado a "Última Ceia", como dizem os espanhóis "No creo en brujas, pero que las hay... hay".

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