segunda-feira, 4 de junho de 2012

Lágrimas de bocejos


A cada bocejar os meus olhos enchem-se de lágrimas motivadas pelo cansaço de demasiados dias inundados de boémia. Sinto-me mal… verdadeiramente mal. O meu abdómen parece estar à beira de explodir e tenho a garganta apertada. Quero arrotar e não consigo. Não devia ter comido aquela merda de hambúrguer. Descobri uma garrafa de água das pedras no fundo do frigorífico, mas não a consigo abrir. Desconfio que aquela coisa habita esta casa há demasiados anos. Pode ser que uma água tónica consiga dar cabo desta “doença”, embora nunca tenha tido a perfeita noção dos poderes curativos – se é que os tem – desta bebida. Hoje estou danado. Ontem estive medianamente feliz e anteontem estava moderadamente melancólico. Estou especialmente desiludido com a vizinha da frente. Logo hoje, dia em que abriu toda a janela para ostentar um fabuloso rabo-de-cavalo propício à canzana, é que decidiu acompanhar-se de um jovem na flor da idade que, caso não a coma, vai ter direito a várias enrabadelas de Deus quando chegar ao céu. A verdade é que já estava aqui há algumas horas a admirar-lhe o esbelto pescoço enquanto me ia entretendo a ver banda desenhada devassa feita no Brasil. Hoje percebi que já não há espaço para a memória e isso faz de mim um atrasado mental. Quando era miúdo perdi montes de horas a decorar uma infinidade de coisas que agora estão à distância de um botão no telemóvel. Esta constatação enervou-me bastante após ter passado uma noite, de puro contentamento diga-se, a declamar os grupos de Europeus e Mundiais desde 1990 para ultrapassar uma insónia descabida. Do que me vale nos dias de hoje saber qual é a capital do Botswana? Gaborone está a apenas dois segundos (se tanto) de distância de telemóveis, tablets, iphones e mais o caralho. Lá se vai todo um estatuto. Esta preguiça mental torna-se evidente quando já não existe aquele bichinho de ir para casa ver uma resposta a uma qualquer pergunta numa enciclopédia. Desiludi-me bastante quando só precisei de dez segundos para descobrir que Vidal Fitas era o gregário da Tróiamarisco do qual andava a tentar lembrar-me há várias (estóicas) horas. É por isso que as gerações de hoje se encaminham para um vazio intelectual gritante. Merda de tempos estes em que as respostas estão todas na ponta do dedo. Arrotei quatro vezes desde o início do texto, sinto-me melhor, mas lembrei-me que não gosto de água tónica.





Dias do Fim


31 de Março de 2011

A teoria de 2012 foi-me apresentada com leviandade, com um certo gozo até. No meio de um número considerável de imperiais, o Péricles, apaixonadamente como sempre, contava uma mirabolante história que, só de si, tornava mais fiável o fim do calendário maia, marcado para o fatídico 21 de Dezembro de 2012. Embriagado e divertido, dispus-me a assinalar a data na agenda do meu telemóvel para poder marcar um encontro - ali mesmo na tasca onde estávamos - onde o nosso profeta de bolso pudesse dizer "viram? eu tinha razão" no momento em que as paredes começassem a tremer e o mar invadisse a terra.
- Um menino, desaparecido há muitos anos, voltou à sua aldeia na Índia clamando a todos os que o quisessem ouvir que estavam na presença do deus... hmmm... Brahmaputra
- Caralho Péricles!! Brahmaputra???
- Sim, cara... Brahmaputra, divindade do... fim do mundo, claro!


Gargalhadas ecoaram pela mesa. Tudo aquilo era uma invenção descarada daquele gajo, que, porém, tinha um ar estupidamente credível enquanto continuava a debitar baboseiras. Todo aquele discurso feito naquela noite longíqua e bem regada permaneceu bem vivo nas memórias de todos os presentes, que fizeram a questão de o espalhar aos sete ventos causando vivo espanto nas cabeças dos mais susceptíveis e dos amantes das teorias de consipração "celestialo-científicas", ou o que quer que seja. Aos poucos, a mentira foi sendo tantas vezes repetida que acabou por se transformar numa verdade completamente absoluta. Perguntam-me se eu acredito?? Claro que não. Mas hei-de fazer com que acreditem...

04 de Junho de 2012

Ao longe, dá para ver um par de sereias azuis e a côr vermelha dos carros dos bombeiros. Incêndio? Acidente? Atropelamento? Fuga de Gás? Não, um suícidio seguido de homícidio voluntário. À minha frente, jazia uma enorme árvore centenária, característica do bairro, tombada sobre o asfalto e um automóvel preto. Pela forma como a raíz tinha saltado para fora do passeio, dava a impressão que aquela árvore tinha optado por se arrancar do solo para dar cobro à vida, arrastando na sua queda o inocente autómovel que ali estava estacionado. À hora que vos escrevo, ainda se ouvem as serras a cortar os imensos galhos e o som da grua que tenta, sem sucesso aparente, içar o enorme tronco. Da minha janela, consigo ver os galhos frondosos que começavam a estar repletos de folhas anunciando uma Primavera que está a chegar tímida e intermitente. Ao ver aquela árvore caída fico feliz por ter marcado a "Última Ceia", como dizem os espanhóis "No creo en brujas, pero que las hay... hay".