A cada bocejar os meus olhos enchem-se de lágrimas motivadas pelo cansaço de demasiados dias inundados de boémia. Sinto-me mal… verdadeiramente mal. O meu abdómen parece estar à beira de explodir e tenho a garganta apertada. Quero arrotar e não consigo. Não devia ter comido aquela merda de hambúrguer. Descobri uma garrafa de água das pedras no fundo do frigorífico, mas não a consigo abrir. Desconfio que aquela coisa habita esta casa há demasiados anos. Pode ser que uma água tónica consiga dar cabo desta “doença”, embora nunca tenha tido a perfeita noção dos poderes curativos – se é que os tem – desta bebida. Hoje estou danado. Ontem estive medianamente feliz e anteontem estava moderadamente melancólico. Estou especialmente desiludido com a vizinha da frente. Logo hoje, dia em que abriu toda a janela para ostentar um fabuloso rabo-de-cavalo propício à canzana, é que decidiu acompanhar-se de um jovem na flor da idade que, caso não a coma, vai ter direito a várias enrabadelas de Deus quando chegar ao céu. A verdade é que já estava aqui há algumas horas a admirar-lhe o esbelto pescoço enquanto me ia entretendo a ver banda desenhada devassa feita no Brasil. Hoje percebi que já não há espaço para a memória e isso faz de mim um atrasado mental. Quando era miúdo perdi montes de horas a decorar uma infinidade de coisas que agora estão à distância de um botão no telemóvel. Esta constatação enervou-me bastante após ter passado uma noite, de puro contentamento diga-se, a declamar os grupos de Europeus e Mundiais desde 1990 para ultrapassar uma insónia descabida. Do que me vale nos dias de hoje saber qual é a capital do Botswana? Gaborone está a apenas dois segundos (se tanto) de distância de telemóveis, tablets, iphones e mais o caralho. Lá se vai todo um estatuto. Esta preguiça mental torna-se evidente quando já não existe aquele bichinho de ir para casa ver uma resposta a uma qualquer pergunta numa enciclopédia. Desiludi-me bastante quando só precisei de dez segundos para descobrir que Vidal Fitas era o gregário da Tróiamarisco do qual andava a tentar lembrar-me há várias (estóicas) horas. É por isso que as gerações de hoje se encaminham para um vazio intelectual gritante. Merda de tempos estes em que as respostas estão todas na ponta do dedo. Arrotei quatro vezes desde o início do texto, sinto-me melhor, mas lembrei-me que não gosto de água tónica.
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Dias do Fim
A teoria de 2012 foi-me apresentada com
leviandade, com um certo gozo até. No meio de um número considerável de
imperiais, o Péricles, apaixonadamente como sempre, contava uma mirabolante
história que, só de si, tornava mais fiável o fim do calendário maia, marcado
para o fatídico 21 de Dezembro de 2012. Embriagado e divertido, dispus-me a
assinalar a data na agenda do meu telemóvel para poder marcar um encontro - ali
mesmo na tasca onde estávamos - onde o nosso profeta de bolso pudesse dizer
"viram? eu tinha razão" no momento em que as paredes começassem a
tremer e o mar invadisse a terra.
- Um menino, desaparecido há muitos anos,
voltou à sua aldeia na Índia clamando a todos os que o quisessem ouvir que
estavam na presença do deus... hmmm... Brahmaputra
- Caralho Péricles!! Brahmaputra???
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